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Brasil atinge R$ 3 trilhões em impostos antes de outubro — e ainda assim a pobreza persiste

Brasil atinge R$ 3 trilhões em impostos antes de outubro — e ainda assim a pobreza persiste

Enquanto o Brasil mal entra em outubro e já ultrapassa a marca de R$ 3 trilhões arrecadados em impostos no ano, milhões de brasileiros seguem vivendo na pobreza. O que deveria ser um motivo de comemoração pela capacidade de arrecadação, torna-se um incômodo retrato de ineficiência, má gestão e desigualdade estrutural.

Em 2023, a marca de R$ 3 trilhões foi alcançada apenas em meados de dezembro. Em 2024, veio em novembro. Agora, em 2025, o Brasil alcançou o valor recorde antes mesmo do fim da primeira semana de outubro. No ritmo atual, o país poderá fechar o ano com cerca de R$ 4 trilhões arrecadados, algo inédito.

A pergunta que não quer calar: onde está todo esse dinheiro?

A arrecadação cresce em velocidade inédita, mas os indicadores sociais continuam estagnados — e, em alguns casos, retrocedendo. A fome voltou a assombrar regiões inteiras do país. A informalidade ainda domina o mercado de trabalho. A educação pública enfrenta cortes. A saúde pública sobrecarregada. O contraste é gritante.

Para muitos, o problema não é a falta de recursos — é como eles são (ou não são) usados.
Um estudo da Oxfam, que viralizou nas redes neste ano, revelou que a fortuna do 1% mais rico do mundo — estimada em US$ 33,9 trilhões — seria suficiente para erradicar a pobreza global 22 vezes. Ou seja, para eliminar a pobreza no mundo uma única vez, seriam necessários cerca de US$ 1,54 trilhão (aproximadamente R$ 8,17 trilhões).

O mundo tem cerca de 3,5 bilhões de pessoas vivendo na pobreza. Se com esse valor seria possível retirar metade da população mundial da miséria, por que o Brasil, com cerca de R$ 4 trilhões anuais, não consegue tirar 60 milhões de brasileiros da pobreza?

Uma conta que não fecha

O Brasil tem uma das maiores cargas tributárias do mundo em proporção ao PIB — em torno de 34%, segundo a Receita Federal —, mas retorna pouco em serviços públicos de qualidade. O sistema tributário brasileiro também é notoriamente regressivo, ou seja: os mais pobres pagam proporcionalmente mais impostos do que os mais ricos.

Ao mesmo tempo, renúncias fiscais, privilégios corporativos, sonegação e corrupção continuam drenando bilhões dos cofres públicos todos os anos. A conta final pesa no bolso do cidadão comum — e ainda assim, os serviços não melhoram.

O Brasil é o retrato de um paradoxo moderno: um país rico, que arrecada como país desenvolvido, mas entrega serviços de nações em crise. Com os recursos que arrecada, o país deveria ser uma potência em educação, saúde e infraestrutura social. Mas não é.

E enquanto isso, a desigualdade grita. Não é apenas um problema de arrecadar mais — é de distribuir melhor, de governar com eficiência e, principalmente, de priorizar quem mais precisa.

A marca de R$ 3 trilhões em impostos antes de outubro é, sim, histórica. Mas ao invés de celebrar, deveríamos refletir com profundidade. O problema não está nos números — está no que eles escondem.

Talvez seja hora de parar de perguntar “quanto o governo arrecada?” e começar a cobrar “o que o governo entrega com tudo isso?”

Por Nathália Schwartz

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